terça-feira, 7 de abril de 2020

Da Pinheira a Floripa - Desembarque

Enfim, Floripa, de vento em popa
No domingo de carnaval, 27 de fevereiro, nem pisamos em terra na Pinheira. Foi só o tempo de tomar um bom banho de mar, contemplar aquela paisagem maravilhosa e o dia lindo, fazer o café da manhã expresso e içar as velas pra retomar nosso rumo.

A entrada na baía sul foi tranquila, com vento quase de popa, que nos permitiu usar o balão. Rumamos para um ponto da costa, perto da casa do nosso amigo Carlos, que ia me substituir na tripulação. Eu ia voltar para Porto Alegre, aproveitando que estava no meio do feriadão e certamente teria passagem de ônibus disponível. Por telefone, avisamos também outro amigo gaúcho que mora por lá, o Marthin. Logo, estavam os dois nos esperando na praia.

Meu desembarque foi patético, digno de amadores. Não tinha profundidade para chegarmos muito perto da praia, pois a maré estava baixa. Para complicar, o vento nos empurrava para a terra. Fui baixado com minha mala no nosso bote inflável, amarrado a um cabo, deixando que o vento me levasse. Como ainda estava longe de terra, a tripulação foi emendando outros cabos, até usarem todos os que tínhamos a bordo. Mesmo assim ainda acabei me molhando na arrebentação, paciência. Demos boas risadas.

Meio acabado, meio feliz


Embarcado o Carlos no Araruna, para me substituir na tripulação, o Marthin me deu uma carona para a estação rodoviária. Depois de comprada a passagem, estava eu fazendo um lanche lá e contando as aventuras, para diversão do Marthin, quando toca o telefone. O Araruna estava atracando num trapiche, pertinho dali. Como ainda tinha tempo, fomos a pé. O Carlos sugeriu uma escala nesse lugar, para abastecerem de água potável. Pena que não lembrou antes, pois teria simplificado muito a operação de embarque e desembarque. De qualquer forma, valeu a parada para nos despedirmos novamente, brindar com alguma cerveja que tinha sobrado e... quase esmagar o meu pé.

Num momento de distração, quando o capitão estava manobrando para reposicionar o barco no trapiche, eu tentei segurar a proa do barco, para amortecer a batida iminente nas tábuas, mas ele vinha embalado e subestimei a força necessária. Para piorar, esqueci o pé na borda do trapiche, onde ele foi "atropelado". De leve, mas suficiente para rasgar o tênis de pano por cima e o dedão ficar inchado. Tive receio daquele troço piorar na viagem de ônibus e cheguei a pensar em trocar a passagem e ir para um hospital fazer um raio X. Mas eu conseguia mexê-lo, então achei que não era grave. Achei certo, por sorte, e cheguei bem em Porto Alegre.

O Araruna seguiu viagem, rumo a Bombinhas e Porto Belo.

Não sou de fazer selfie, mas lembrei de pedir para minha filha fazer esta logo que cheguei em casa, para registrar a expressão de cansaço misturado com alegria. A bandeira ao fundo eu comprei junto com a que enfeita a popa do Araruna.

domingo, 29 de março de 2020

De Laguna à Pinheira

Passando pelo Farol de Santa Marta

No final da manhã de 26 de fevereiro, sempre com aquela brisinha mixuruca, chegamos a Laguna, onde mais uma vez seria necessário fazer uma escala para reabastecermos não apenas com o óleo diesel, mas também com gás, cerveja e outros alimentos menos essenciais. A entrada da barra foi meio tensa. Quando já estávamos quase entrando, enxerguei uma boia meio desbotada que indicava que o canal estava em outro lugar. Optamos por confiar no mapa do GPS e deu tudo certo. Mas era só o começo, pois nosso calado de metro e meio não era o mais adequado para passear por ali. Sinalização de canal, nem pensar. Fomos seguindo devagar pela direita, por onde vimos outros barcos.

Atracamos num trapiche vago e conversamos com pessoas que estavam por ali, e nos deram informação sobre onde ir, nos arrumaram um taxi e ainda ficaram tomando conta do barco. Para completar, o Ingo conseguiu uma mangueira substituta para o motor, com um sujeito que tinha uma oficina ali do lado, grátis.

O sol do meio dia nos encontrou (e castigou) andando pela cidade, onde almoçamos, fomos ao supermercado, ao posto de gasolina e à distribuidora de gás, tudo isso em pleno sábado de Carnaval, no meio da galera fantasiada e carros com sonzeira de tudo que é estilo. Por sorte era cedo e ainda dava pra andar na rua, pois se fosse mais tarde talvez encontrássemos tudo engarrafado. Demos boas risadas.

Entardecer no mar
Fomos embora loucos para voltar ao mar, torcendo para não encalhar na volta. A primeira onda que bateu no casco e respingou no convés, depois de sairmos da barra, foi recebida com gritos de alegria. O vento, para completar, tinha melhorado. Finalmente, desligamos o motor. O plano era irmos direto até a baía norte da Ilha de Santa Catarina, onde morava nosso amigo Carlos, que nos esperava, mas a previsão de chegada era no meio da madrugada. Para isso, teríamos de passar à noite pelo estreito que dá acesso à baía sul, entre a Ponta do Papagaio (no continente) e a dos Naufragados (na ilha, o nome já diz tudo), lugar perigoso pelas pedras e correntes causadas pela maré.

Como estava no meu turno, os parceiros dormindo, decidi fazer uma escala na Pinheira, para esperar o amanhecer. Logo o Paulo acordou e apoiou a ideia. Já era uma da madrugada quando lançamos âncora, primeiro ao norte da baía (eu achava que os morros nos protegeriam do terral que estava soprando), mas logo mudando para o sul, onde não entravam as ondas. Além de ser naturalmente um excelente abrigo essa praia, a iluminação pública era muito forte, facilitando a visibilidade.

Essa escala improvisada acabou sendo (para mim) o ponto alto da viagem, pois de manhã, quando nos jogamos na água, percebi que o objetivo principal era esse. Depois de tantos verões viajando de carro e ônibus até as belas praias de Santa Catarina, de ter ficado olhando com inveja aqueles veleiros que chegavam e ancoravam por ali, finalmente eu tinha chegado num deles. Chegar pelo mar na praia é que era o barato!

quinta-feira, 26 de março de 2020

De Rio Grande a Torres

Primeiro alvorecer no Atlântico Sul
Vencidos os molhes da barra de Rio Grande, rumamos para o Nordeste, acompanhando a costa deserta onde mal se via alguma luz aqui e ali. Mas as luzes das cidades ao longe, refletidas no céu, ajudavam a dar uma ideia da posição e da distância em relação à praia. Assim foi a noite toda e o amanhecer de sexta 24, com vento quase zero e motor funcionando o tempo todo.

Como nosso estoque de óleo diesel não era grande, foi preciso fazer uma escala para reabastecer, em Tramandaí. Na hora de lançar âncora, defronte à barra do Rio Tramandaí, fiz duas besteiras seguidas. Primeiro, saí correndo rumo à proa, para soltar a âncora, e devido ao bote inflável estacionado ali passei muito perto da borda do barco. Ao mesmo tempo, uma onda estava passando, como quem não quer nada, o que fez meu pé perder o contato com o convés (o chão onde eu pisava). O tombo n'água era iminente, mas aí cometi o segundo erro: tentar me segurar no guarda-mancebo (aquele cabo de aço que circunda toda a embarcação), por cima do qual eu fui lançado, usando mãos e pernas. Acabei pendurado, "ganhando" um arranhão na perna e torcendo um pouco o joelho,  por pura sorte, sem gravidade. É provável que cair no mar - o barco já estava parado, e os parceiros a bordo - tivesse sido mais divertido e inteligente, além de refrescante. Ainda precisei de ajuda pra sair daquele enleio, pois nem conseguia me puxar de volta sozinho.

Mas teve mais perrengue por ali. Embarcamos o Ingo no inflável, com um monte de galões vazios, rumo à praia. O Paulo conseguiu contatar o amigo Tonho Ely por telefone, quem se dispôs a dar carona até o posto de combustíveis. Na rebentação, lá se foi o bote onda abaixo, e o Ingo pra água com seus galões, por sorte amarrados um ao outro. Aparentemente, nada além de um banho forçado. Ao chegarem ao posto, contudo, a constatação: a carteira tinha se extraviado durante o pequeno naufrágio. O Tonho generosamente emprestou o dinheiro e trouxe o capitão de volta à praia, devidamente abastecido. Mais tarde, alguém encontraria a carteira. Mais um pouco de sorte.
Mais calmaria que isso, impossível...

Seguimos viagem faceiros. Ao passarmos por Xangri-lá, fizemos contato por telefone com o amigo Jorge, que estava veraneando por ali e viu nossa vela passar ao longe. Ao anoitecer, estávamos passando por Torres e entrando em Santa Catarina. O vento ia melhorando, muito lentamente. No meio da madrugada, durante o meu turno, eu tentava aproveitar aquela pálida brisa, porém o rumo do barco (que era preciso manter para aproveitá-la) ia dar na costa, lá adiante. Mantive até o último minuto, já sabendo que ao mudar o rumo teria de desistir da vela e ficar só no motor. Pois não é que bem naquela hora o vento muda a nosso favor? Mais um pouco de sorte, e já estávamos esbanjando a essa altura.

Não posso terminar a jornada sem ao menos tentar descrever a sensação de estar sozinho no convés, pilotando um barco à vela à noite no mar, que é das mais incríveis. Sensação de solidão absoluta e desamparo ante as forças da natureza, mesmo você tendo feito todo o dever de casa, tendo que contar com a sorte (de novo) de que nada vai estragar (no barco) ou dar errado (cruzar com uma baleia, uma rede ou sei lá). E apesar disso, ou por isso mesmo, é um prazer. O jeito é se concentrar no que é preciso e possível fazer, e não pensar muito no que pode acontecer. (E rezar, pra quem curte).

domingo, 30 de junho de 2019

Enfim, rumo a Santa Catarina

Resumida nas postagens anteriores a pré-história do Araruna - compra, transporte e reforma - e as origens do amor pela vela que anima seus tripulantes, agora podemos dar continuidade à saga com os fatos mais recentes (já nem tão recentes). Afinal, não é difícil adivinhar o principal motivo para alguém ter um barco desse tamanho no Rio Grande do Sul: chegar com ele até Santa Catarina. Por água, bem entendido. E agora estávamos prontos para a empreitada.

No inicio do Carnaval de 2017, após constatarmos a boa probabilidade de uma frente fria chegar ao Estado, planejamos levar o barco até Bombinhas SC. Na quinta-feira 23 de fevereiro, por volta do meio dia, recolhemos o Paulo, terceiro tripulante, na Rodoviária de Porto Alegre e pegamos a estrada rumo a Rio Grande, para onde o Ingo já tinha levado o Araruna há poucas semanas, com outra tripulação.

Enquanto Ingo fazia os últimos preparativos a bordo, Paulo e eu fomos fazer compras. Na volta, como não tínhamos almoçado e não queríamos perder tempo, comemos um cachorro quente - coisa que o Ingo não curte de jeito nenhum. O dono da carrocinha era um soldador, "apenas mais um" desempregado do pólo naval, que nos contou uma parte da sua história. Ele mesmo fabricou a carrocinha, anos atrás, para ajudar um familiar, sem imaginar que um belo dia ele mesmo a estaria operando. A cidade passa por maus momentos. O cachorro era bom.

Abastecida a nave com diesel e víveres (um rancho de mais de R$ 300 no supermercado, o que nos deu direito a um pano de prato de brinde, sempre útil a borda), e constatado o (fraco) vento favorável, com a maré vazante (também favorável), largamos as amarras por volta das sete horas, com os últimas luzes do dia. Na primeira curva, fomos xingados por pescadores, que gostariam que passássemos mais ao largo, para não atrapalhar a sua pescaria. Por sorte, passamos longe o suficiente para não entender os xingamentos, no que fomos ajudados pelo barulho do motor.

Com vento quase zero, seguimos lentamente pelo canal rumo à barra, até que o motor apagou. Ficar praticamente à deriva (sem motor, com vento quase zero) num canal onde a qualquer momento poderia se aproximar um navio enorme não é uma situação nada agradável para quem recém zarpou para uma viagem de mais de 600 km. Propus abortar a missão, mas o capitão, como de costume, menosprezou meus temores, garantindo que conseguiria resolver o problema rapidamente. O que ocorreu, após longos 15 minutos, embora o problema (o famoso "ar falso") voltasse a aparecer diversas vezes ao longo da primeira metade da viagem, deixando-nos apreensivos, até a solução definitiva.

A tão aguardada saída da barra foi a coisa mais tranquila, decepcionante até, parecia mais uma piscina, mais parado até que a lagoa. Então aquilo que era o terrível litoral do Rio Grande? E dê-lhe motor.

quarta-feira, 10 de abril de 2019

De volta à água

Será que boia? O Alemão Carlos assiste, vestido
de forma adequada à solenidade do momento.
No tão aguardado dia 4 de setembro de 2014, o Araruna foi içado sobre um caminhão (devidamente habilitado, dessa vez) e trazido a Porto Alegre. Levado a um depósito de areia, sob a ponte do Guaíba, foi finalmente posto em águas doces, um ano e quatro meses depois de ser içado em Santos. (A foto de capa deste blog ilustra esse momento histórico, e a alegria dos marujos ali retratados dispensa legendas) Nosso amigo Carlos, vulgo Alemão, também velejador, acompanhou a operação, junto com o Fernando, auxiliar do Ingo.

Dali, seguimos a motor para o Clube Veleiros do Sul, onde já estava acertado com o Niels e sua equipe a montagem do velho mastro reformado, que aconteceria no dia seguinte. À noite, comemoramos no Veleiros com cerveja e comida mexicana. 

De boa na Lagoa, com garoa. Quem tem piloto automático,
tem tudo.
A nota triste (e lamentável) ficou por conta da minha caminhonete, que teve um pneu furado no estacionamento do clube, por alguém que não gostou do meu adesivo do PT. Mas ao longo dos próximos quatro anos, eu continuaria achando que o borracheiro tinha se enganado e era apenas um acidente, em vez de sabotagem. Só me caiu a ficha quando soube que alguns associados dessa agremiação (onde não pretendo pisar novamente) rejeitaram o Duca Leindecker e a Manuela D'Ávila, em 2018.

Para complicar, a GM teve a brilhante ideia de colocar umas capas nos parafusos da roda, de modo que eu, que nunca ia imaginar uma coisa dessas, não consegui nem desmontar a roda, tendo que ir daquele jeito mesmo até o borracheiro. O Ingo dormiu no barco e voltei para casa.

Feita a montagem do mastro, sem percalços, no dia seguinte zarpamos rumo a Tapes, com uma vela mestra (de um Soling) emprestada pelo Niels e a buja reserva (já que as nossas titulares tinham sido praticamente destruídas no tombo do mastro em Santos). Em seguida, o motor começou a vazar diesel. Fizemos uma atracação de emergência no Jangadeiros, onde encostamos no Raccso, o trawler do amigo lajeadense Rubem, após conversar por telefone com a Cristina, que nos atendeu com muita amabilidade.
Fim da (primeira) epopeia: o Araruna descansa
em seu novo lar, o Iate Clube Tapense

Resolvido o problema pelo Ingo, zarpamos já ao cair da tarde, sob uma chuva fina, rumo à Lagoa dos Patos. Noite fechada, abrimos a buja, mas seguimos motorando, meio receosos de botar mais pano no vento. Era quase de manhã quando chegamos a Tapes. Antes de dormir, abrimos e esvaziamos uma champanha, para comemorar o final daquela longa jornada, iniciada em Parati. O Araruna tinha um novo lar.

segunda-feira, 1 de abril de 2019

Na estrada, no depósito e no estaleiro. O mastro reencontrado

À espera do caminhão: o Araruna, desmastreado, amanhece
na Marina Pier 26, em Guarujá SP
Depois de algumas postagens dedicadas a explicar de onde veio nosso amor pela vela, retomamos aqui o fio da meada interrompido quando perdemos o mastro do Araruna, no litoral paulista, e tivemos de voltar pra casa de avião, deixando o barco na Marina Pier 26, de Guarujá. Mal podíamos imaginar que a viagem do Araruna por via rodoviária, até o Rio Grande do Sul, seria tão ou mais aventurosa (ou desventurada) do que o trajeto marítimo.

Contratamos um caminhoneiro para buscá-lo, cientes (e ademais alertados pelo pessoal da marina) de que a ausência do proprietário na operação de içamento e embarque representava um risco adicional à integridade da embarcação (aquele ditado sobre o "olho do dono", conhecem?) Mas não havia remédio, não tínhamos como estar lá.

Mas deu tudo certo nessa etapa, e o caminhão seguiu seu rumo pela estrada, até ser parado pela Polícia Rodoviária Federal, já no sul de Santa Catarina. Ao que tudo indica, o veículo não tinha as credenciais para fazer esse tipo de transporte, já que o barco carregado ultrapassava a largura máxima permitida. Este, então, teve de ser descarregado num depósito, em Tubarão. Passados uns dois meses e diversos telefonemas entre nós e o proprietário do depósito, ele mesmo gentilmente nos conseguiu um frete "de volta" - um caminhão que voltaria ao RS vazio, e portanto cobraria um preço bastante em conta para trazer o barco. Dentro da lei, desta vez.

E assim, o Araruna veio a se tornar praticamente uma atração turística, na bucólica cidadezinha de Picada Café, na antiga região colonial gaúcha. Estacionado no amplo pátio de uma loja de material de construção, lá permaneceria por longos meses, ao longo dos quais recebeu uma reforma no casco, com a troca da plataforma de popa, e pintura completa. Para ser franco, o Ingo fez praticamente tudo sozinho, com suas lendárias habilidades de marceneiro e a ajuda do seu fiel escudeiro Fernando. Fiz umas duas ou três visitas, pra ajudar.

No meio disso tudo, meu sócio ainda encontrou tempo para fazer uma excursão, convencido de que conseguiria encontrar e resgatar o mastro perdido. Num dos dias mais frios da história, em julho, ele e o Fernando atravessaram a serra de Santa Catarina coberta de neve e chegaram a Santos, num dia de ressaca. Lá chegando, foram direto à praia do Perequê, onde encontraram quase todos os pescadores em terra. O plano era esquadrinhar as imediações do local onde o mastro havia afundado (marcado no GPS), com um espinhel de anzóis grandes, previamente preparado para a missão. Ocorreu que o primeiro sujeito que eles abordaram, em busca de um barco para alugar (péssima ideia num tempo ruim), após ouvir a história respondeu que conhecia o tal mastro, que ele mesmo tinha pescado com sua rede de camarões, a qual depois de um trabalhão ficou inutilizada.

Lá se tocaram para a casa do cara, em cujo pátio encontraram o mastro sobrevivente, com as velas infelizmente bem danificadas, sem utilidade a não ser como retalhos para algum remendo futuro. Eles não queriam cobrar pelo resgate, mas para compensar a gentileza e o prejuízo com a rede o Ingo se ofereceu para comprar dele um motor Volvo usado, que estava ali dando sopa,  por um preço bem em conta. Era parecido com o do Araruna e viria a ter utilidade para reposição de peças. Fechado o negócio, foi necessário aguardar mais algum tempo, até que um caminhão a serviço de nossos amigos lajeadenses passasse por lá, para fazer o transporte. O mastro ainda fez uma escala em Osório, no camping da Pinguela, onde nosso amigo Irno tem um trailer. De lá, seria levado diretamente a Porto Alegre, para o Niels refazer o estaiamento.

No próximo capítulo, o Araruna fará o percurso contrário: a tão sonhada viagem de barco até Santa Catarina.

terça-feira, 28 de março de 2017

As origens IV - O Júlia

O Júlia vai se aproximando de Itapuã. Reparem o pau de
spinnaker de bambu feito em casa. Janeiro 2012.
Com a volta de Jorge para Lajeado, ele e o Irno - outro colega nosso de turma no colégio, que  como o leitor deve lembrar participou da segunda expedição a Parati, mas também construiu em casa um caiaque de fibra (o Von Klotz) - colocaram em ação o plano mais ambicioso de todos: construir um veleiro de aço de 36 pés. O "canteiro de obras" foi instalado no pátio da casa do Irno, e consumiu muitas chapas e dias de trabalho, mas acabou abandonado ainda no casco, e vendido.

Logo, Ingo e Jorge compraram um 23 pés, o Júlia, em Tapes (do qual o Irno tornou-se sócio honorário). Nele o pessoal teve oportunidade de aprender um pouco mais na prática sobre a vela de oceano. Ano passado, o barco foi levado em cima de um caminhão para Florianópolis, onde ficou sob os cuidados do Alemão Carlos, atualmente residindo por lá, bem próximo do mar na Baía Sul.

As Origens III - O Malacara

O Malacara no seu melhor habitat: a Lagoa da
Pinguela, tripulado por Jorge e Dani (1997)
Somente no final dos anos 1980 é que tivemos um novo salto de qualidade nessa função de barco. Em 1989, Jorge e eu voltávamos a compartilhar nosso apartamento de estudantes em Porto Alegre, depois de passarmos uma temporada trabalhando no interior. Um belo dia, ele encontrou um veleiro usado à venda, nos classificados do jornal. Fomos olhar e logo fechamos negócio. Era um 470, o Malacara I, que nos daria muitas alegrias Guaíba afora. Classe olímpica, duas velas, com trapézio (aquele negócio que faz um sujeito ficar pendurado do mastro por um cabo de aço, fazendo contrapeso para o barco não virar), outro papo. E não apenas no Guaíba, pois viajou também de reboque algumas vezes até as praias de Santa Catarina (Bobinhas, mais precisamente). Lá, fizemos belas travessias com ele, de Bombinhas até Itapema e de Bombinhas até Santo Antônio de Lisboa (em 6 horas).

Mais tarde, com a volta de Jorge para Lajeado, seu uso foi se reduzindo. Andou um tempo no estaleiro em Estrela, em garagens em Lajeado. Reabilitado, passou veraneios na Lagoa da Pinguela, em Osório, e acabou voltando à capital em 2005, quando me associei no SAVA, onde está ainda hoje, mais no seco que na água. Passei a convidar outros parceiros, já que o barco exige um mínimo de 2 tripulantes: Zeca, Rômulo, Segala, Xico, Carlos, Ricardo, Moyses, Bruno (o que mais andou), além da minha esposa Isabela. Alguns debutaram na vela.
Pela falta de tempo, infelizmente, o Malacara não foi pra água este verão. Mas tá em condições... Isto é, mais ou menos. Flutuando eu garanto.

domingo, 12 de março de 2017

As origens (II)

O Magnum 422
O mesmo Ingo (que conheci na postagem anterior, como vocês recordam) algum tempo mais tarde, ganhou dos pais um pequeno veleiro, um Magnum 422 e, mais ou menos na mesma época, se a memória não me engana, o Paulo - um vizinho do Ingo que não era nosso colega de escola, mas foi logo integrado à turma, comprou um Hobie 3.9. Daí em diante, os barcos a remo ficaram meio relegados, afinal para que a gente ia se matar remando se podia velejar sem fazer esforço.

Um Hobie 3.9
De fato, não era bem assim. Quem já velejou (em barcos sem motor) sabe que não é raro o vento acabar e você (na falta de remos a bordo, o que geralmente é o caso) ser obrigado a deitar de bruços na proa do barco e remar de volta ao porto de partida... com os braços. O Rio Taquari, aliás, não era um local muito apropriado para a vela, devido às barrancas altas em muitos lugares, que "protegem" um pouco o leito do rio do vento. Em caso de cheias, também tinha a correnteza forte e perigosa. Mesmo assim, serviu perfeitamente para nossos primeiros "passos".

Desde então, circulavam entre nós os maravilhosos livros de velejadores mais ou menos malucos que se aventuravam mundo afora: Joshua Slocum, Geraldo Tollens Linck, Roberto Mesquita de Barros (o Cabinho), Thor Heyerdahl, Amyr Klink (que mais tarde alguns de nós chegaríamos a conhecer pessoalmente, em Parati)... De forma mais ou menos consciente, sonhávamos em fazer algo parecido um dia, um dia distante. E íamos aprendendo o que dava, ao menos na teoria. Aquele vocabulário cheio de bujas, escotas, gaiútas, adriças, bolinas... Mas o tempo ia passando e estávamos sempre ocupados ganhando a vida, criando os filhos e outras coisas mais...

Araruna, as origens: descobrindo o rio e o remo

No tempo do meu avô Nicolau (aquele, com o cigarro na boca), o Taquari na
altura de Lajeado era mais divertido, mas não navegável para barcos
de maior calado
Eu deveria narrar agora a realização, no último Carnaval, pelo Araruna, de um antigo sonho, compartilhado entre alguns velhos amigos: viajar de veleiro até Santa Catarina. Mas senti falta de, antes, tentar explicar de onde veio este sonho ou, nas palavras de um amigo, "como meia dúzia de alemão da colônia chegaram a gostar tanto de mar e veleiros".
Pois tudo começa (para mim) em 1978, quando nos primeiros dias do 1o. Ano do Auxiliar de Escritório (hoje Ensino Médio) eu vim a conhecer o Ingo, nosso novo colega. Ele havia ganho, no seu aniversário ou no Natal, uma "regata",  barco a remo de dois lugares, similar a um caiaque, mas de fundo chato, feito de compensado naval, tinindo de novo em sua pintura azul e branca. Perguntou se eu sabia nadar e, diante da resposta afirmativa, me convidou para uma remada no Rio Taquari.
O Taquari ficava a cerca de um quilômetro da minha casa, mas mesmo assim eu nunca tinha ido até sua margem, já que para nadar tinha a piscina do clube. Ademais, nesta altura o rio é fundo, desde que foi represado pela Barragem de Bom Retiro do Sul, e não tem praias a não ser bem mais acima, já fora de Lajeado. Mas claro, antes da barragem, esse trecho era cheio de corredeiras, impróprio para navegar.
E lá fomos nós, andando e carregando o tal barquinho até a rampa, no Bairro Carneiros. Na água, ele era instável, e só neste primeiro dia viramos quatro vezes. Não, não usávamos coletes salva-vidas. Mas com a prática, logo íamos adquirir um maior equilíbrio e inclusive aprender a reembarcar dentro dágua, mas neste dia tivemos de trazê-lo de volta à margem a cada "virada".
Desnecessário dizer que aquilo virou minha principal diversão, principalmente (mas não só) no verão. A piscina do clube foi quase esquecida.
Em breve, outro colega nosso, o Jorge - que tal como o Ingo tinha em casa uma oficina de marcenaria bem equipada - construiu ele mesmo outra regata semelhante, também de dois lugares, que recebeu pintura amarela. (Caiaques de fibra ainda eram raros - e caros - por ali). Não demorou muito, alguém teve a ideia de colocar um mastro de taquara e uma vela triangular de algodão, feita com algum lençol velho, em cima delas, mas não havia jeito de equilibrar aquilo em cima da água. O jeito então foi unir as duas, por meio de uma estrutura de madeira feita sob medida e fixada como extensores ("aranhas"), construindo assim... um catamarã, geringonça que não só chegou a funcionar mas superou nossas expectativas. Isso até um temporal terminar com a nossa alegria.

domingo, 28 de abril de 2013

Fim da linha em Santos: agora é com o caminhão

Na marina, encardido e sem mastro: melancólico fim da linha
para o Araruna
Fizemos contato por rádio com a Marina Pier 26, avisando que iríamos antecipar nossa chegada. Já era noite fechada. A entrada na baía de Santos tinha dezenas de navios ancorados à espera da atracação, oferecendo ao longe um discreto espetáculo de luzes.
O lendário Paratii, de Amyr Klink, em reparos na mesma
marina: um bom presságio.
Conscientes da nossa insignificância, fomos humildemente nos esgueirando, por dentro do canal, mas bem à margem. Ao nos aproximarmos da cidade, a intensa iluminação dificultava o reconhecimento da sinalização e até de eventuais embarcações pelo caminho. O auge da emoção foi quando um imenso cargueiro de containers vinha saindo do porto. Pareceu por alguns intermináveis instantes que ele passaria por cima de nós. Porém graças à carta náutica ("mapa", para os leigos) nós sabíamos com absoluta (?) certeza que ele tinha que fazer a curva para estibordo, pois afinal era por ali que o canal seguia. Bom, ele fez a curva e nós estamos aqui sãos e salvos contando essa história.
Do canal principal fomos derivando para uma rede de canais que abastece diversas marinas, seguindo as orientações passadas por rádio e a carta do GPS. Na chegada, tomamos aquele necessário e demorado banho (o último havia sido em Paraty!) e preparamos o último jantar a bordo. Parafraseando aquele ditado: "Dia de tainha assada pelo Bruno, véspera de miojo".

De volta a Porto Alegre, via aérea.
Na manhã de domingo, Ingo e Fernando foram de ônibus até Bertioga, buscar a camionete, enquanto eu me encarregava das tratativas na administração da Pier 26, onde fui muito bem recebido. Ficou acertado que iríamos enviar um caminhão para carregar o barco na próxima quarta-feira, feriado do primeiro de maio. Teríamos de confiar no pessoal da marina e no motorista do caminhão, já que nenhum de nós poderia ficar aqui para supervisionar a delicada operação (o que teria sido ideal).
Voltando de Bertioga, os parceiros me apanharam na marina e deixaram na Rodoviária, seguindo viagem para o sul. Tomei um ônibus para São Paulo, depois metrô, outro ônibus e finalmente o avião para Porto Alegre, onde ao fim da tarde eu já estava no aniversário da pequena Sofia, com bastante histórias pra contar.

sábado, 27 de abril de 2013

Pescando mastro e outras indiadas

Foi bem ali, perto daquela ilha. Acho que dá para encontrar.
Como a travessia estava lascada mesmo, o jeito era relaxar e, como tinha peixe fresco à mão, Bruno se encarregou de assar umas tainhas no capricho para o jantar.

Não demorou muito para nos darmos conta de que mais estúpido do que ter deixado o mastro afundar sem nenhuma boia marcando sua localização seria ir embora sem ao menos tentar resgatá-lo. A profundidade não era tão grande, uns 15 m, o local estava marcado no GPS, o tempo estava bom. Não era impossível, portanto.

Enquanto Ingo ia atrás de um mergulhador disposto a encarar a missão, Bruno e eu fomos procurar uma marina onde fosse possível retirar o Araruna da água, para transportá-lo de caminhão até o Sul. A única que tinha equipamento para fazer o serviço com segurança cobrava muito caro. Pegamos o bote inflável, instalamos o motor pequeno e nos tocamos canal acima, para ver as outras.
Depois de um belo almoço regado a cerveja por ali, que quase nos fez esquecer a tragédia do dia anterior, ficamos sem gasolina. Para completar, um sujeito nos conseguiu um litro de gasolina... velha. A volta foi um parto, um ia remando enquanto o outro puxava até cansar a correia para fazer pegar o motor, que quando ligava funcionava na lenta por uns 30 segundos e depois morria de novo. Para fechar com chave de ouro o dia, ao fim desse lindo passeio eu ergui o motor de popa do inflável sem antes fechar o raio da válvula, inundando o bote com gasolina. Foi esse o fim da viagem para o Bruno, que retornou a São Paulo para pegar o vôo de volta a Porto Alegre, um bocado frustrado, mas com a Carteira da FUNAI renovada por mais um bom período.

Por telefone, acabei fechando negócio para a retirada do Araruna d'água com a marina Pier 51, em Santos. Pensamos em levar o barco até lá, no dia seguinte, em princípio por dentro do canal, mas não observamos um tráfego constante de embarcações maiores por ali. Tentamos nos informar sobre o calado (profundidade), que no Araruna é de 1,5 m, mas recebemos respostas contraditórias.

Pescaria de mastro, nunca ouviu falar?
O mergulhador fez o seu trabalho, mas não achou sinal do mastrto. A água estava turva. O plano B dependia da habilidade de pescador do Fernando. Consistia em preparar um espinhel com uns anzóis reforçados e fazer uma varredura em torno do ponto exato do incidente, tentando enganchar o nosso tesouro submerso. Fizemos isso ao fim da tarde, novamente sem sucesso. Em vez de voltarmos a Bertioga, para tentar a passagem pelo canal, tivemos a sábia ideia de levar o barco pelo mar mesmo até a Pier 51, pois já estávamos quase na metade do caminho. Uma vez lá, alguém voltaria de ônibus a Bertioga para buscar a camionete.


quinta-feira, 25 de abril de 2013

De Bertioga até perder o mastro

Lua cheia sobre Bertioga, ao fim da tarde
Chegando em Bertioga, era preciso reabastecer, para o que foi necessário encher o inflável, fixar nele o outro motor de popa, menor, subir motorando canal acima, até um posto, dentro de uma marina, na margem direita do canal, ou seja, na Ilha de Santo Amaro. Depois de embarcado Bruno, novo tripulante, e sua bagagem, mais alguns mantimentos; e desembarcado o Fernando, que voltaria a Paraty de ônibus para buscar a camionete, partimos no final da tarde da quinta-feira, 25 de abril, data que nunca mais esqueceremos.

O vento, pela primeira vez, começava a refrescar, prometendo uma velejada de verdade. Já estávamos cogitando desligar o motor quando, na metade do caminho até Santos, o mastro tombou para boreste, fazendo um barulhão que nos deixou apavorados. Um ou dois estais tinham se rompido, ao que parecia; ou não estavam bem fixados. Princípios de pânico a bordo.

O barco balançava um pouco, devido ao peso do mastro, e nosso maior medo não era de todo sem fundamento, o de que a cruzeta furasse o casco, batendo nele com o balanço do mar. Mas pouco provável, analisando friamente agora, aqui no meu apartamento sequinho e que não balança. De qualquer forma, era impossível prosseguir daquele jeito. Estávamos a uma distância segura da costa, mas se derivássemos na sua direção, empurrados pelo vento, podíamos bater na Ilha do Arvoredo, uma ilhota a pouco mais de um quilômetro de onde estávamos, defronte à Praia de Perequê.

Entrei na cabine, coloquei o colete salva-vidas e alcancei outros para os colegas. O rádio, sem o mastro, no alto do qual estava sua antena, não funcionava. Fizemos contato por celular com a marinha, não sei quem tinha ou como descobrimos rapidamente o número. Bruno e eu chegamos a ligar os dois ao mesmo tempo, tão atarantados estávamos. Soubemos pela Marinha que havia um naufrágio de verdade acontecendo ali perto, e só poderiam nos ajudar depois de socorrer as seis pessoas a bordo da embarcação que afundava.
É óbvio que na hora que o mastro caiu ninguém se lembrou de tirar fotos.
Desembestei a soltar sinalizadores. Dois, daqueles de para-quedas, falharam. No escuro, eu não conseguia ler as instruções, mesmo de óculos. Um facho funcionou. Por ignorância, soltei um fumígeno, que só se usa à luz do dia, quase não se vê à noite. A situação não era, em resumo, tão apavorante; os marujos é que eram novatos. O motor funcionava, o barco não fazia água (depois que Ingo reforçara aquele remendo no espelho de popa). Mesmo assim, sem pensar muito, optamos por soltar do convés os estais que restavam, desprendendo o mastro totalmente, com retranca, velas, adriças e tudo o mais. Livres daquele incômodo, fizemos meia volta e fomos motorando de volta, dormir em Bertioga, para pensar no que fazer no dia seguinte. Ainda choque, mas abobadamente felizes por estarmos vivos. Embora houvéssemos marcado com o GPS o local exato do sinistro, por incrível que pareça ninguém teve a ideia de amarrar no mastro qualquer coisa que flutuasse, permitindo assim que pudéssemos resgatá-lo facilmente no futuro.

quarta-feira, 24 de abril de 2013

De Paraty a Bertioga: finalmente navegando

Prontos para a partida
Acordamos pela primeira vez com a maior auto-confiança, de quem comprou um motor novinho em folha. Ingo improvisou um suporte na popa para ele, com parafusos auto-atarraxantes, que no primeiro teste quase foi para o fundo do mar com motor e tudo. Já tínhamos até nos despedido do Luiz e companhia, com direito a foto. Aliás, o Luiz tinha visto aquela gambiarra e alertou que não ia funcionar. Dito e feito. Pagamos o mico de voltar ao trapiche, trocamos os parafusos por outros, com porca, agora sim. Esse motor só ia ser desligado quase vinte e quatro horas mais tarde. Na hora de embarcar, foi a minha vez de escorregar com o chinelo de dedo (evite usar isso a bordo de qualquer embarcação) e bater a canela na plataforma de popa. Mergulhei na água, não sei bem como, inutilizando o celular, na pior hora possível.

Adeus, Paraty
O vento variava de fraco a inexistente, mar tranquilo. Curtimos um belo por de sol, seguido de uma belíssima lua cheia. A parte inesquecivelmente ruim era um fio de água que entrava por um buraco no espelho de popa, causado pela infiltração ao redor de uma vigia mal instalada pelo antigo dono, e remendado provisoriamente pelo Ingo.

Chegando à Ponta da Joatinga
Se fosse só água, até que eu não me importava, o pior é que ela passava pelo compartimento do motor, “lavando” os restos de óleo, que carregava para baixo do assoalho da cabine. Passamos a viagem nos revezando na remoção dessa água, procurando evitar que ultrapassasse o nível do assoalho (que ficaria emporcalhado e escorregadio como o diabo), com pano e um balde que ia e vinha do convés para a cabine e vice-versa.

Respirar o cheiro de diesel agravava o enjôo, então a cada tanto era necessário sair correndo e ficar uns dez minutos no convés, respirando ar fresco, para se restabelecer. Como o vazamento era acima da linha dágua, variava conforme a direção das ondas e a velocidade do barco, chegando a parar por vezes, dando uma trégua.

Já era noite quando passamos a Ponta da Joatinga. Depois de ajustar o rumo no piloto automático, Ingo desmaiou lá na cabine de proa, e fiquei no comando. Ele tinha traçado um trajeto por fora da Ilha de São Sebastião, ainda longe, mas como agora aproveitávamos um pouco de vento pela popa, foi ficando meio desconfortável, aquela coisa da retranca trocando de lado volta e meia, com um soco. Desviar uns graus a bombordo resolveria, mas nos afastaria mais ainda de terra. Além disso, o lado de fora da ilha era bem deserto e, quando a deixássemos pela manhã, ficaríamos muito distantes da costa no trecho até Bertioga, embora a distância total fosse menor, razão pela qual Ingo havia escolhido esse trajeto.
Amanhecer no canal de Ilhabela
Atraído pelas luzes da civilização, que me transmitiam alguma segurança, como marinheiro novato, decidi mudar de bordo e de rumo, rumando canal adentro, isto é, passando entre ilha e continente. Logo, antes de clarear o dia, fui recompensado com um terral, que me fez obrigou a desligar o piloto automático e pegar o leme na mão. Era o melhor vento até então, mesmo tendo durado pouco. O receio do Ingo em passar por ali era o tráfego de navios, mas estava bem tranquilo àquela hora.

Almoço a bordo
Acabou sendo uma boa escolha, mesmo que tenha aumentado um pouco a distância. Linda paisagem, ainda mais com o dia nascendo, animando a tripulação. Para completar nossa alegria, depois do café Fernando pescou nosso almoço.

Após deixar a ilha para trás, atravessamos a longa baía numa bela manhã de sol, praticamente só no motor, e ao chegarmos em Bertioga o Bruno já nos aguardava por lá. A barra do canal não tinha sinalização, mas a profundidade era boa, fomos avançando devagarinho sem sustos até ancorar, pertinho da margem esquerda, um pouco à montante do cais da barca que faz a travessia rodoviária. A alegria de termos conseguido chegar com segurança era ainda maior do que a de zarpar, mal cabia em nós. Para o Fernando, era um batismo de mar.

sexta-feira, 19 de abril de 2013

Terceira tentativa: ou vai ou racha

TERCEIRA EXPEDIÇÃO – Abril 2013

Não chega a ser de todo ruim... 
Ou o terceiro módulo do International Boat Management Program Certificate (IBMPC). A terceira etapa foi marcada para 19 de abril, apropriadamente o Dia do Índio no Brasil. Na última hora, Irno desistiu da viagem. Partimos – agora sim - na camionete Nissan do Ingo, com Fernando e eu, na sexta à noite. Paramos para dormir em Palhoça, casualmente a cidade onde moram Helena e Rogério, nossos amigos donos do 33 pés Santa Preguiça, que já tiveram o Ingo como tripulante numa travessia.



...ter de voltar a esse lugar

Eu havia lhes enviado, já em cima da hora, um convite, por correio eletrônico, para se integrarem à tripulação, mas não havia recebido resposta antes de sair, nem tinha acesso à Internet na estrada. Era um pouco tarde para ligar pra eles, agora. Depois, já em Parati, eu ficaria sabendo que eles estavam ocupados na mudança de casa. Acabei convidando o Bruno (Cascata), meu mais frequente proeiro de 470 no Guaíba, também habitual praticante de windsurf. Ele topou, mas só poderia viajar na quarta 24. Combinamos que, se tudo corresse conforme esperávamos, ele poderia embarcar no caminho, no litoral paulista provavelmente.
Fernando tentando apanhar uma refeição pra viagem

Num dos primeiros pedágios, Ingo resolveu instalar um daqueles aparelhinhos que permitem passar sem parar pelas cancelas. Nos próximos, descobrimos que ele não funcionava. Sempre tinha que vir alguém, contávamos a história, mostrávamos o aparelho, abriam a cancela manualmente, em suma, demorava o dobro. Até que descobriram que a placa tinha sido registrada com erro. Até ai, tudo bem, mas agora começa a burrocracia (com dois "r"): o cadastro foi feito num posto de pedágio, mas a correção do cadastro, só por telefone. Liguei para o número que me deram e me pediram para enviar o certificado de propriedade do carro por fax. Bom, o fato é que não tínhamos fax no carro. Nem no barco.

Eram nove da noite do sábado dia 20, quando chegamos na Marina do Engenho, nessa que seria a última visita. Levou uma interminável meia hora até encontrarem a chave da cabine do barco, no painel onde ficavam centenas de chaves, aparentemente organizadas. No dia seguinte, pagamos para outro mergulhador trocar o hélice, que deu um trabalho. Confirmado o diagnóstico da inversão do hélice, mesmo assim o motor continuava negando fogo. O jeito foi desistir daquela sucata (ao menos por enquanto) e comprar um motor de popa para quebrar o galho. 
Será que esses urubus tão agourando?

O problema é que quando finalmente decidimos fazê-lo, já era terça-feira, justo o dia de São Jorge, feriado no Estado do Rio. Fomos de camionete até Ubatuba, em São Paulo, onde, depois de uma rápida pesquisa – já era final da tarde – adquirimos um possante Mercury de 15 HP.




sábado, 23 de março de 2013

Segunda expedição

SEGUNDA EXPEDIÇÃO – Março 2013

Com o fracasso da segunda missão, enviada a Paraty no final de março, da qual não participaram os donos do barco – Ingo por estar em viagem com a esposa e eu por compromisso de trabalho – ficamos ainda mais descorçoados. Para o leitor não perder o fio da meada, vai aqui um resumo dessa segunda missão, da qual participaram,além de Jorge e Paulo, veteranos da primeira missão, os novatos Irno e Wilson, este último na condição de motorista encarregado de trazer o carro de volta, caso a missão tivesse êxito e o barco afinal navegasse.

Partiram dia 23 de março, um sábado, com plano de zarpar em algum momento após Ingo e eu, ou ao menos um de nós, chegarmos a Paraty, via aeroporto de Guarulhos. Chegamos a combinar os vôos, para nos encontrarmos no aeroporto, ele voltando do Nordeste, eu partindo de Porto Alegre, para dali tomarmos dois ônibus até chegar a Paraty. Cheguei a adquirir a passagem aérea, usando milhas. Na véspera de embarcar, fui aconselhado pelo comandante, num longo e triste telefonema, a não fazê-lo.

Embora o mecânico houvesse nos informado, por telefone, que o serviço dele estava cem por cento, após a operação que executou, conforme planejado, a um custo total de mais de R$ 5 mil, incluindo dois içamentos e escoramentos do barco, logo após a chegada de nossos amigos, confessou-lhes que sequer havia ligado o motor. Chamado a bordo, ficou um par de horas fuçando nele, sem sucesso. Ainda teve a ousadia de se oferecer para “consertar” o motor por mais R$ 5 mil, o que é claro não aceitamos. Sem dúvida, o translado por terra teria sido sensato. Na volta, o pessoal decidiu transportar a caixa de reversão na camionete, para tentar decifrar o enigma.

Além da frustração, metade da tripulação no retorno teve que lidar com uma grave intoxicação alimentar de beira de estrada, que chegou a dar trabalho ao SAMU de São José dos Campos. Felizmente, sem sequelas.

Só em Lajeado iria cair a ficha – bota ficha nisso. Ingo e Jorge chegaram à hipótese de a hélice ser invertida, isto é, desenhada para girar no sentido oposto ao da rotação do eixo desse motor. Isso explicaria a pouca potência e as constantes “desengatadas” de marcha, durante a navegação.
Essa descoberta – sujeita ainda a confirmação in loco – nos dava um novo alento, pois era de solução relativamente simples. Desde que não lembrássemos do dinheiro jogado fora com o Uriel, claro. Era só fazer um teste, substituindo a hélice. Caso não funcionasse, teríamos um motorista de sobreaviso para trazer o barco de caminhão. Se desse certo, era nóis na água!

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

A primeira expedição chega ao fim

Após o pouso à beira da estrada, vamos pra casa.

7° dia - primeira expedição

Antes de partir, ainda ouvimos uma segunda opinião, de um tal Baiano, sobre o motor. Era tarde. Ingo considerou a possibilidade de permanecer mais alguns dias, sozinho, mas acabou desistindo, pois teria de aguardar mais de uma semana pelo início dos trabalhos do mecânico. Pelas dez e meia da manhã, embarcamos – por terra – de volta ao Rio Grande do Sul.

Já era noite quando acabou a gasolina da van, que bebia um bocado, em plena Régis Bittencourt, entre São Paulo e Curitiba, ou mais precisamente, no meio do nada. O tíquete do pedágio que pagamos tinha um número de telefone para emergências, mas não tínhamos sinal de nenhuma operadora. O jeito foi o nosso motorista pegar uma carona até o próximo posto de pedágio, em busca do guincho para nos rebocar. Ao todo, perdemos quase duas horas nessa brincadeira, fora a multa e o medo de sermos assaltados.

Acho que foi durante essa viagem de volta, ou talvez ainda estivéssemos a bordo quando, para nos divertir e consolar ao mesmo tempo, alguém inventou que tudo aquilo havia sido um curso intensivo, misto de auto-ajuda com liderança para executivos, o Boat Management Program. Havíamos terminado o primeiro módulo com êxito, conseguindo lidar com nossas frustrações, com tranquilidade, sem maiores conflitos, sem faltar cerveja gelada, aguentando bem os peidos e roncos dos colegas, nota dez pra todo mundo. E evidentemente, todos já estávamos matriculados para o segundo módulo, ainda sem data marcada, em que supostamente o Araruna iria navegar. Superamos também a saudade das famílias, a quem agradecemos por nos dispensar de nossas obrigações de pais de família ao longo dessa semana inesquecível.

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

É, parece que por ora não vai rolar a travessia

Paulo é o cozinheiro do dia.

6° dia - Primeira expedição

Hoje finalmente recebemos a visita do mecânico Uriel - aparentemente um mecânico de verdade, sem demérito dos meus amigos amadores, que jogaram a toalha neste quesito. Seu veredito identificou o problema no eixo do motor, o que jogava uma pá de cal nas nossas pretensões de navegar. Segundo ele, seria necessário retirar o barco da água, a fim de remover o eixo e sua bucha, que deviam estar encravados, cheios de cracas, provocando resistência ao giro e consequentemente forçando o motor em excesso, provocando o aquecimento etc. O serviço dele custaria R$ 1.200, não incluídas despesas com o içamento, na vizinha Marina Imperial, e as escoras, a cargo dum sujeito chamado Cocó, dono de um veleiro antigão de madeira, que viria nos visitar mais tarde para combinar os detalhes.

Jorge, que trouxe o mecânico a bordo, questionou-o bastante, enquanto eu tentava entender a conversa. Fiquei convencido da honestidade e da competência do sujeito. Acho que ter visto o carro dele, um BR 800 totalmente detonado, ajudou no quesito honestidade. Se o cara fosse um falcatrua, é certo que ia ter um carrinho novo. Já no quesito competência...

Para relaxar, enquanto tentávamos decidir, ouvimos o Luís contar como ele e o Amyr Klink, proprietário da Marina, trouxeram de São Paulo uma das canoas que o Amyr coleciona, atravessando o Mar Pequeno (entre o continente e a Ilha Comprida, em SP), em pleno Inverno.

Mas não tinha jeito, ou o jeito era fazer o que tinha que ser feito. Após quase uma semana fora de casa, tínhamos que decidir rápido. Mesmo assim, o Uriel só poderia mexer no barco após o Carnaval, pois estava com vários serviços a terminar. O tal Cocó,  responsável pela operação de retirada do barco da água, viria essa mesma noite ou no dia seguinte de manhã para conversar conosco. Seria uma operação cara, com certo risco para a integridade do barco, com o agravante que seria difícil estarmos presentes. Na melhor das hipóteses, porém, retornaríamos em breve, encontrando o barco pronto para zarpar, já que todo o resto estava em dia.

Jorge remendando o bote salva-vidas
Começamos a aprontar a bagagem para voltar, separando o que iríamos deixar a bordo. Uma última conversa com o Luís me deixou intranquilo com relação à competência do Uriel, mesmo considerando que ele é de confiança, trabalhando há mais de uma década na área. Ele sugeriu que levássemos o barco por terra, direto para casa. Muito sensato, mas perderíamos a oportunidade da aventura, que é afinal de contas o que realmente interessa. O mesmo conselho nos é dado por outro gaúcho, proprietário de um 40 pés de passagem por ali.

Conformados, aproveitamos a última noite para jantar e comprar lembrancinhas na cidade.

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

Desatracar!


Já ficou mais limpinho, né não?

5° dia - Primeira expedição

Dia de testes importantes para o Araruna. Cansados de lenga-lenga e loucos para dar uma velejada, logo cedo retiramos as lonas que protegem o convés do sol e chuva. Foi necessário comprar um rádio novo (por mais que o dobro do preço de mercado, mas isso eu só iria descobrir muito tempo depois), jaquetas impermeáveis, mais cabos. Limpamos cabine e convés de quase tudo o que não fosse necessário à navegação, e decidimos ir a Paraty de barco, só para variar.


Não deu muito certo. O motor apagou diversas vezes, até não ligar mais. Em seguida, encalhamos no lodo da baía, sem qualquer sinalização. Ao jogar a âncora, Jorge percebeu que ela levou corrente e cabo junto. Era minha culpa, de repente lembrei que eu estava amarrando o cabo no paiol quando alguém me pediu ajuda para sei lá o quê, deixei o nó pela metade e nunca mais voltei. Por sorte (?) o local era raso, e como o Jorge jogou-se na água de imediato conseguiu resgatá-la. Só a minha reputação de marinheiro ficou seriamente danificada. Um barco de passeio veio ao nosso encontro e, com pouco esforço, nos puxou para fora do atoleiro. Sem motor, mas com muita alegria, só nos restava desenrolar a genoa e voltar velejando. Passamos um rádio para a Marina avisando que estávamos sem motor, e um marinheiro safo nos ajudou a fazer nossa primeira atracação, perfeita. De volta à estaca zero, mas pelo menos sãos e salvos, com aquele gostinho de velejada.

Finalmente, velejando.
Descobrimos que o bote inflável, trazido pelo Jorge, estava furado. Paulo e eu o enchemos, colocamos na água. Foi preciso comprar um  kit para remendos a frio. Pesquisamos o preço de um bote novo, mas adiamos a despesa.

Foi difícil conciliar a expectativa dessa primeira velejada com a crescente evidência de que não seria possível, por ora, zarparmos rumo ao sul e as consequências fatais dessa evidência em nosso entusiasmo inicial. Era preciso tomar decisões sobre nossas agendas pessoais nos próximos dias. Consideramos a hipótese de comprar um motor de popa para a viagem, que não convenceu o comandante Jorge.

Lavamos a roupa suja na marina. A previsão do tempo diz que vai chover uma semana por aqui. Novidade nenhuma... A agenda começa a apertar. Paulo terá de retornar amanhã sem falta, ou no máximo sexta de manhã. Tudo leva à decisão de abortar a missão.

terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

Segue o baile: roncos, aniversário, indisposição estomacal e lavagem.

Depois de muito descanso e vida boa, é hora de dar um tempo e relaxar na cabine.

4° dia - Primeira expedição

Foi uma noite dura, com dois potentes emissores de ondas sonoras na cabine – e não estou me referindo ao Volvo, que permaneceu desligado – e muitas idas ao convés para tirar a água do joelho. Além disso, o compadre Paulo, desde a partida, vinha tendo problemas digestivos, a ponto de abster-se da cerveja (daí se imagina a gravidade do caso). Problemas que já tentara curar tomando Yakult, Gatorade, refrigerante, até chegar ao Buscopan, tudo sem a necessidade de consultar um médico, coisa que só lhe pareceu inevitável já tarde da noite passada. No fim, deu tudo certo.

Hoje o compadre Ingo completa 51 anos e, em comemoração, tomou um tombo ao pular do trapiche a bordo, batendo a canela em cheio na plataforma de popa. Fato que me lembrou da necessidade de comprar logo um kit de primeiros socorros para a travessia.
Mais cedo, voltamos a almoçar no Tempero Paulista, aquele bufê simplão, mas boa comida, preço em conta, nada turístico. Na mesma ida à cidade para o almoço, vamos novamente às compras: além do remédio para o Paulo (agora com receita) e do kit de primeiros socorros, toalhas, produtos de limpeza, mais cerveja. No Ship Chandler, à beira da BR 101, compramos mais sinalizadores, para completar o kit legal; um par de luzes de proa que vamos instalar de forma meio precária; pilhas grandes para a lanterna do salva-vidas.

Não lembro por que motivo eu desmontei a garrafa térmica do Paulo, que se divertiu assistindo eu levar uns inacreditáveis quarenta e cinco minutos para remontá-la. Mais tarde ele descobriria que montei errado. Pior que cubo mágico.

A chuva persistente infiltrou pela gaiúta do convés de proa, mal vedada. Mas água mesmo entrou quando fui encher o tanque com a mangueira. Sem prestar atenção para o limite, o tanque transbordou... dentro da cabine, molhando umas quantas almofadas.
Aproveito a chuva para lavar o casco acima da linha dágua, começando ajoelhado no convés, esticando o braço pra baixo; e prosseguindo mais tarde com o auxílio de um caiaque, providencialmente deixado no trapiche para esta finalidade. Foi um trabalho cansativo, mas que rendeu um estimulante banho de chuva, tendo como resultado uma melhor na aparência do Araruna. Ao menos nisso, ele está pronto.